terça-feira, 9 de setembro de 2014

Mãe de adolescente...




- Estamos muito atrasadas, filha?
Silêncio sepulcral.
Ainda insisto: - Maria! Estamos atrasadas? Preciso ir mais depressa? Eu a chamo pelo primeiro nome quando começo a ficar irritada.
Nada... Não adianta...
Estou falando sozinha de novo! É o que mais faço nos últimos meses, anos, eu diria.
Estou levando minha filha para um ensaio musical que, pelo que sei, é de extremo interesse dela, só dela, e não sei ao certo o horário que ela tem que estar lá e parece que ela não está nem um pouco preocupada com isso.
Por vezes penso que estou ficando louca e olho para o lado para verificar se não esqueci a menina em casa. Vai que...
Melhor verificar se tem mais alguém no carro e que não estou falando realmente sozinha. Não estou, ou melhor, estou. Ela está ali, mas é a mesma coisa que não estivesse. Ou seja, continuo só. Muito só...
Duvido que exista no mundo um ser humano mais solitário que a mãe de um adolescente.
Devíamos nos unir e fundar a União Nacional das Mães Desprezadas, tipo um grupo de ajuda, entende? Para facilitar a fase longa e difícil que provavelmente vamos atravessar...
Voltando ao assunto “tentar ser ouvida”, é de desesperar qualquer mãe, tia, avó... Eles (os filhos) mantêm o tempo todo um fone de ouvido ligado numa altura que até você ouve. Tenho para mim que não é só por gostar de música. É a forma mais eficaz que adotaram para evitar nos ouvir, ou fingir que não estão ouvindo.
Quanto a minha adolescente, tenho certeza absoluta de que ela vez ou outra finge que não está ouvindo o que estou falando. Não responde por pura pirraça.
Eu pelo menos, me sinto desamparada, e claro, tremendamente frustrada com isso. Nem brigar eu consigo!
Que adianta “dar uma dura”, discutir a relação, fazer um elaborado discurso sobre os malefícios de um fone de ouvido tão alto, dos benefícios de manter o quarto organizado e de comer melhor, entre outras coisas tão pertinentes para nós, mães, se a criatura nunca está lhe ouvindo e que, portanto nem lhe responde?
Como argumentar qualquer coisa com uma planta? É no que eles se transformam quando estamos a sós com eles.
Nós, mães de adolescentes somos seres indesejáveis na maior parte do tempo.
Somos apenas toleradas quando estamos a serviço da cria, sendo motorista, caixa de banco, cozinheiras, fazedoras de pipoca, esquadrinhadora  de coisas desaparecidas pelo quarto deles (sempre desordenado), médica para os momentos de dor ou mal estar, colo para as crises e sofrimentos emocionais e ainda “Assessora para Casos Extraordinários”, que existe para  providenciar coisas tais como uma fita colante de cor azul às 22h00 de domingo.
E por aí vai...
Ruim mesmo é a sensação de inadequação. Olham-nos como se fôssemos seres bizarros, com poder de vexá-los só pela nossa simples existência. Uma mãe fazer uma piadinha ou brincadeira na frente de qualquer amigo, colega, estranho que seja, é quase motivo para fuga de casa ou suicídio.
Tenho cá para mim, que nossos filhos, nessa idade entre doze e dezoito anos gostariam nos arquivar numa prateleira, de preferência no botão de “desligado” se tivéssemos um, e de lá só sairíamos para solucionar o que eles não conseguem resolver sozinhos, e de preferência de boca calada e voltarmos imediatamente ao problema resolvido.
Claro que isso não acontece o tempo todo.
Vez por outra eles vêm com aquela carinha de quem ainda não sabe se quer crescer, atrás de um afago desinteressado.
É nessa hora que a gente mata a saudade um pouquinho das nossas criancinhas que foram abduzidas por aqueles corpos que crescem sem parar e nos olham com tanto repreensão.
Eu tento relembrar se eu fui assim com minha mãe, o que duvido, pois ela não sabia dirigir, eu não tinha fones de ouvidos e, caso eu me atrevesse contrariar alguma ordem, não... eu não ousaria...
Seus puxões de orelhas eram literais e dolorosos.
Vai ver, eu devia ter aprendido mais com ela.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ficando velhinhas?

               

              A gente percebe que está ficando velha quando sua irmã, quase da mesma idade, começa a fazer paninhos de crochê para dar de presente”, disse zombeteiramente e algo estupefata a minha irmã um ano mais nova, ao receber meu presentinho.
            Dei-me conta na hora o quanto ela tinha razão porque era uma situação surreal, como deve ter parecido a ela.
            Digo isso, primeiro porque parece coisa de "senhorinhas" ( o que somos, mas não nos achamos) dar paninhos de crochê de presente e depois, porque nunca tive habilidades manuais, a não ser gostar de desenhar o que culminou até por determinar minha profissão equivocadamente. Se você desenha bem, não significa que você deva ser arquiteto. Essa é a lição da minha vida que tenho a passar a esses moços, pobres moços.
            Mas voltando ao mote principal, nunca fui de fazer nenhuma arte manual a não ser algumas pulseirinhas em macramê que aprendi com um hippie velho, ainda na minha adolescência.
            Ah sim, esqueci-me de uma coisa. Pinto óleo sobre telas há muito tempo. E gosto bastante, mas não sei se tenho algum talento e talvez nunca venha saber, mas deixo claro aqui que sou uma pintora bienal já que minha produção consiste em um quadro a cada dois anos, se tanto.
            Recentemente me transferi para um setor da prefeitura do município, onde trabalho, que credencia artesãos e convivendo com esse pessoal eu descobri que adoro fazer artesanato e trabalhar com as mãos. Desse momento em diante nunca mais consegui ficar parada. Todos os dias eu produzo alguma coisa.
            Comecei com “scrappbook” que para quem não sabe o que é, “roubo” a explicação do Wikipédia que está bem sucinta e clara: O “scrapbook” é uma terminologia em inglês para definir um livro com recortes, é, entretanto uma técnica de personalizar álbuns de fotografias ou agendas com recortes de fotos, convites, papel de balas, flores secas e qualquer outro material que possa ser colado e guardado no interior de um livro.
            Começando com o “scrap”, nome mais íntimo, comecei complementar fazendo também a encadernação e após, cartonagem que usa tecido nas colagens das capas de álbuns, em bolsas, etc. É um trabalho extremamente lúdico, onde se retorna no tempo, é como voltar a ser criança cortando e colando papeis coloridos, carimbando, entre outras diversões, tudo isso usando a criatividade e desenvolvendo um estilo. E ainda se guarda as boas lembranças com fotografias especiais. É tudo de bom!
            O comércio criou uma enorme quantidade de ferramentas e variedade de papéis que tornaram a brincadeira bem séria e já tem um mercado enorme no ramo das decorações de festas, lembrancinhas, etc.
            Mas para mim é apenas um “hooby”, uma atividade praticada por prazer nos tempos livres, só que extremamente dispendioso já que a maioria do material bom vem dos Estados Unidos onde a técnica é muito difundida.
            Então resolvi variar um pouco com coisas mais baratas. Com falta de panos de prato em minha casa, comecei pintando alguns. Depois aprendi uma técnica com tecido autocolante chamada de “patch aplique” (procurem no Google), mas faltava um acabamento legal nos panos, então, por fim pesquisei no “youtube”, sim no “youtube” e assistindo alguns vídeos aprendi vários modelos de pontos de crochê para panos de prato o que deu origem a essa crônica, se é que pode ser assim chamada. 
                 Essa internet é fantástica!
              Num desses dias inspiradores, sem mais nem menos, fui até uma dessas lojas de eletrodomésticos e comprei uma máquina de costura sem jamais ter usado uma. 
                  Imaginam isso? Quem me conhece sabe do que estou falando.
            As habilidades em costura dessa pessoa que vos fala, ou melhor, vos escreve, resumem-se em pregar botões e fazer mais ou menos uma “bainha” numa calça ou saia. Prefiro até pagar para alguém fazer de tão ruim.
             Escolhi um modelo simples (de máquina de costura) e lá fui eu toda feliz com minha mais nova aquisição para casa, sem saber nem como ligava.
             Bom, como nem tudo é impossível nessa vida, eu comprei alguns panos, uma amiga me deu algumas dicas, li o manual, e saí fazendo dezenas de almofadas tortas. Eu e minha máquina tivemos algumas brigas feias, pois eu não sabia que meu pé era o único responsável pela peleja. A velocidade da máquina é determinada pela força com que o pé pisa no pedal, então foi um duro e pândego aprendizado.
            Só que aconteceu algo estranho, pois não obstante minha pouca habilidade, senti uma empatia, uma espécie de identificação com o utensílio. Alguns movimentos que eu fazia com as mãos eram mecânicos, como se meu subconsciente soubesse o que fazer.
                  É claro! Óbvio ululante!
            Desde os dois ou três anos de idade, lembro-me de minhas avós a paterna e a materna, assim como minha mãe, costurando. Interessante o que fica gravado em nossa memória.
            Daí virou uma questão de treino. O pano já não sai correndo de mim, mas só faço linha reta ou tento. Por enquanto...
            Então me apresentaram um tear de pregos. Fiz dezenas de cachecóis e enjoei. Aí aprendi fazê-los em tricô. Duas agulhas, uma meada de lã, alguns pontos e lá vou eu...
            Bordei um jogo de toalhas em “ponto cruz”, mas vi que não tenho paciência para bordados. Aprendi a fazer “fuxico”, mas acho chato, Já vi a técnica de fazer flores de E.V.A., mas não gostei, contudo ainda quero aprender muitas coisas inspirada por esses artesãos maravilhosos.
            Para ser bem sincera, não me aprofundei em nada e faço o quase básico das coisas que tenho vontade, exceto o scrap, a encadernação e a cartonagem que me apaixonei. Mas meu objetivo é todos os dias fazer alguma coisa útil com minhas mãos, mesmo que apenas alguns pontos de crochê num paninho.
            Assim sendo, minha irmãzinha caçoadeira, não vou presenteá-la com uma colcha de crochê jamais, pois sei que não terei paciência para tanto, mas você ainda vai receber muitas lembrancinhas feitas por mim de várias técnicas que vou aprendendo por aqui.   


            Pode até significar que estamos ficando velha e isso até que é bem bonito.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Eu ando pelo mundo

Imagem do google

            “Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que nem sei o nome...”
 Assim começa uma canção da Adriana Calcanhoto que gosto muito, mas confesso que isso é uma coisa que definitivamente não sou de fazer: prestar muita atenção...
          Tenho um defeito crasso que já me prejudicou muito, principalmente na minha profissão de arquiteta: a distração e total carência de senso de observação.
            Sou lesa no olhar, totalmente auditiva, mas também gosto das coisas escritas...
            Todavia, não estou escrevendo para falar dos meus gostos e das minhas deficiências, até porque (as deficiências principalmente), não caberiam numa crônica só, e ainda sou prolixa e me enredo por caminhos que fogem do assunto.
            Acho que já escrevi isso antes.
        Tentando retornar ao assunto, não sou de prestar muita atenção nas coisas, muito menos nas cores que sei ou não o nome, mas outro dia dei de cara com um carro cor de abóbora na rua. Não, não era “laranja”, nem “cenoura”, “ocre”, “salmão”, “tijolo”, ou qualquer nuance semelhante. Era cor de abóbora mesmo. Daquele “abóbora”, usado em gravuras psicodélicas dos anos 70.
            Sei que esse é um assunto, digamos bocó, e não vai acrescentar nada de novo ou de bom ao planeta, mas a crônica é minha e escrevo sobre o que me vem à cabeça, sem querer ser impertinente.
            Fiquei fascinada, pois me chamou a atenção e isso é coisa difícil de acontecer, ainda mais considerando o estado meio apático que ando. Então me peguei observando inevitavelmente as cores dos carros das ruas.
            Entre um ou dois vermelhinhos ou “vinho”, a maioria vai do preto ao branco com muito mais de cinquenta tons de cinza, parafraseando o título do livro de E. L. James, que apesar de ser um fenômeno de vendas não comprei e não li. Não tive vontade.
            Por que será?
            Não sobre a vontade, mas por que será que os carros não têm mais cores?
       A Fiat até trouxe ao mercado, visando os jovens motoristas, uma safra de carros coloridos, o Uno college. Aliás, mais que coloridos, quase neon.
            Mas não os vejo muito pelas ruas, o que me leva a crer que, ou não venderam muito ou os compradores se arrependeram e ficaram com vergonha de andar com eles por aí... Sabe-se lá
            Eu andei pesquisando alguns carros para comprar e encontrei um que gostei e era azul. Um tom de azul lindo!
            Queria de todo jeito. Acho que “rolou” uma nostalgia, pois era cor da Variante da que meu pai tinha quando eu era criança. 
            Fui inteiramente demovida da ideia por todos que se arrebataram a debochar e opinar sobre a cor do carro, mesmo sem eu ter pedido. Chamava muita atenção, era brega, difícil de revender, que isso, e  aquilo...
            Eu ainda nem comprei e nem estou pensando em vender!
      Terminei por desistir, obviamente, mas ficou em mim uma sensação de ter sido manipulada e de não ter prosseguido com uma decisão que me cabia.
            Senti-me uma frouxa e sem opinião.
        Observando a rua hoje e avistar o carro cor-de-abóbora, que nem bonito era, percebi que quase todo mundo teme ousar e prefere ficar na zona de conforto, variando entre o preto e o branco para não chamar a atenção.  Nossa necessidade de fazer parte...
            Parece que nem os ladrões querem roubar carros coloridos, veja só.
            A psicologia também tem sua explicação. A maioria das pessoas opta por preto, prata ou branco ao comprar um carro, porque busca status e sofisticação, mas a escolha por essas cores também revela insegurança, pois impede que os motoristas expressem seus verdadeiros sentimentos, blá-blá-blá...
            Eu sinceramente sinto falta de cores e parece que estamos vivendo tempos de Henry Ford e seus carros pretos...
        Concluo que o que influencia toda essa engrenagem é mesmo a capacidade de revenda do veículo, pois no que se refere ao valor da tinta, as mais caras são as metálicas de qualquer cor, portanto os carro podem ser coloridos sem custar mais por isso.
      Algumas indústrias automobilísticas pelo mundo têm ousado com cores mais espalhafatosas em seus carros, mas não chegam à América do Sul, que tem 72% de sua frota pintada nesses tons acinzentados que nem podem ser chamada de cores...
            Na Europa, Japão e EUA é fácil encontrar carros azul-neon, verde-limão, amarelo-ouro, azul-piscina e tem até tintas especiais que deixam o carro bicolor de acordo com a luz.
              Ok, também não precisamos exagerar...
            Está cada vez mais raro deparar com automóveis coloridos e me sinto vítima dessa ditadura ou “moda” das cores sem cor.
            Algumas revendedoras até atendem pedidos especiais, mas além de ser demorado é muito caro.
            Confesso que não me conformo com o encolhimento do mercado dos carros coloridos que afinal, expressam a personalidade dos donos e alegram nossas ruas e avenidas.
            Entretanto, parece que os carros coloridos são uma prerrogativa dos caros modelos esportivos, ou dos modelos para a garotada que não tem medo de ser feliz.
            Veio-me uma ideia agora: O governo proporciona um transporte público de qualidade,  bonito e colorido e a gente diminui a compra de carros de todas as cores e tons.
             Que tal?

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Um tantinho de esperança...



Assistindo as manifestações de pesar pela morte de Nelson Mandela, me perguntei como era possível que há tão pouco tempo atrás existisse um regime oficial de “apartheid”, onde seres humanos eram separados apenas pela cor da pele, e aceitávamos calados, como se natural fosse e nada tivéssemos com isso.
Nessa linha de raciocínio, lembrei-me da escravidão ocorrida em tantas partes do mundo, não só com os negros, mas com nações e tribos mais fracas, entre outras desumanidades que a história conta. A força quase sempre é déspota e cruel.
Hão de me dizer os mais pessimistas que “apartheid” ainda existe extra oficialmente, através de preconceitos velados e mal disfarçados.
Pode ser, e não se consegue transformar o coração de todas as pessoas, mas o preconceito hoje é crime, e a parte ofendida pode afinal defender-se, o que já é um pequeno avanço.
Entre outros convencionalismos abusivos, pensei na quantidade de jovens que se perderam, ao serem expulsos de casa por serem homossexuais e de tudo que sofreram dessa sociedade quadrada, limitada e sem condescendência com os “diferentes”. Acredito que hoje, os homossexuais são mais que aceitos e respeitados pelo que são como pessoas, e não por sua orientação sexual. Congratulo com meus amigos corajosos que lutaram por si mesmos e por seus direitos de assumirem-se apesar de tudo que sofreram, antes de todas essas transformações.
Outra mudança significativa, é que até pouco tempo (ao menos que eu saiba), pouca gente se importava com os animais de rua doentes e abandonados e hoje existem centenas de organizações e indivíduos lutando pela causa animal, pelo bem do planeta e pela conscientização ambiental. Isso é bonito!
Temos muito que evoluir, mas percebo que subimos um degrau. Pequenino ainda, mas sinto que estamos, embora muito lentamente, apurando nossos corações, exercitando nossa compreensão e aprendendo a lidar com as diferenças da maravilhosa raça humana.
Não quero parecer uma otimista pueril sofrendo a influência desse “sentimentalismo de final de ano” que costuma tomar conta de nossos corações, para logo no começo do ano seguinte extinguir-se feito chama mal mantida. Eu acredito realmente que estamos sutilmente evoluindo. Ao menos uma parte de nós.
Sei que existe muita gente má ou mal orientada e ainda assistimos muita violência, nas ruas, nos lares, nas guerras por religião, território ou poder, interesses capitalistas e tantas outras desculpas indesculpáveis.
Ainda há tanta gente abandonada, faminta, drogada, doente de corpo e alma. Ainda há tanto que se fazer...
Mas existe uma esperança se acreditarmos veementemente no Bem e assumirmos nossa fração de obrigação para com a humanidade e ajudar a cuidar dessa gente mais precisada, com um pouco mais de afeto, com um pouco mais de compaixão.


É tudo que o mundo precisa agora: Compaixão. 
E que no novo ano que se aproxima possamos ser um pouco melhores.

sábado, 30 de março de 2013

Está demitida!



- Sinto muito Joelma, mas não será possível continuar com você.
- Como assim Dª Rossana?
- É que eu estou com um tremendo 'problemão' sabe? Vai mudar a legislação das empregadas domésticas por conta de uma tal Emenda Constitucional e vai ficar muito complicado manter você conosco.
- Por quê? Eu já estou aqui há três anos... Já sei, foi porque eu quebrei a sopeira de porcelana, e não deu para emendar, né?
- Não Jô, apesar do baita prejuízo, eu entendi que foi um acidente. Isso são águas passadas.
- Então o que foi que eu fiz dessa vez?
- Não foi você que fez querida. Lembra que você viaja toda sexta à noite para passar o fim de semana com sua família em Piracaia?
- Claro, né Dª Rossana? Eu faço isso há três anos, ora.
- Pois é, mas não pode mais.
- Por quê?
- Porque pela nova Lei, você tem que trabalhar aos sábados.
- Mas a Senhora disse que não precisa de mim no sábado...
- Mas a nova Lei disse que eu tenho que precisar. Ah... E você não pode mais morar aqui em casa também, senão eu vou ter que pagar hora extra.
- Mas daí, onde eu vou morar?
- Ué, Joelma, você vai ter que arrumar outro tipo de emprego e com seu salário, alugar um quartinho.
- Mas daí eu vou tenho que pagar aluguel, água luz... Aqui eu não pago nada. O que vai sobrar para eu mandar para minha família em Piracaia?
- Talvez você tenha que voltar para sua cidade e morar com eles.
- Tá brincando! Eu não quero morar lá. Eu sou feliz aqui com a senhora, ‘Seu’ Chico, a menina...
- Pois é, mas não adianta se desesperar. A coisa vai ficar tão feia que se eu precisar que você atenda um telefone depois do seu horário, vou ter que pagar hora extra e adicional por trabalho noturno. Com a nova lei também vou ter que começar a pagar o FGTS que antes era opcional.
- O efe o quê Dª Rossana?
- Fundo de Garantia, Joelma! Eu já pago doze por cento do INSS, décimo terceiro, férias acrescida do terço constitucional, dou descanso semanal remunerado e descansos nos feriados, mas, além disso, eu agora tenho que depositar mais oito por cento além do seu salário para o Fundo de garantia. Não dá para mim!
- Num precisa pagar Fundo nenhum não Dª Rossana! Eu não ligo pra essas besterinhas...
- Também vou ter que pagar salário família e auxílio creche.
- Creche? Nem tenho filhos...
- Vai que arruma... E tem mais, sabe aquela horinha do almoço que eu chego do trabalho correndo e preciso conversar com você enquanto eu como, para organizarmos as tarefas que não dá tempo de falar de manhã?
- Então não sei? A hora do almoço é uma correria só.
- Pois nesse horário especificamente, você vai ‘ter que estar’ no seu horário de almoço, se a emenda virar lei. Se eu falar com você eu vou ter que pagar hora extra porque é sua hora de folga obrigatória.
- Então eu vou ter que almoçar na mesma hora que a senhora, mesmo sem ter fome? A senhora sabe que eu faço uma ‘boquinha’ lá pelas dez...
- Ô se sei, Joelma. Uma “bocona” para sermos mais sinceras.
- Credo Dª Rossana, a senhora nunca foi de regular...
- É que às vezes você exagera né Jô? Come um pão inteiro no meio da manhã com meu queijinho especial, pegas minhas comidinhas de dieta...
- É que eu prefiro, sabe? A comida da senhora é gostosa e engorda menos, mas se a Senhora não gosta, eu como o pão com queijo branco e manteiga mesmo.
- Só rindo... Vou sentir sua falta, minha amiga, mas o fato é que como eu não vou poder arcar com todas essas mudanças, então, não posso manter você aqui conosco. Estou tão chateada quanto você.
- Mas quem foi a ‘bruaca’ que inventou essa tal de emenda? Se eu encontro na rua ela vai ter que emendar a própria cara...
- Não fale assim, Joelma. Ela é uma Senadora da República. Parece que ela até já foi empregada doméstica e deve ter boas intenções. Parece que tais mudanças caracterizam uma conquista da categoria.
- Que categoria o quê! Eu não ‘tô’ conquistando ‘nadica’ de nada, ué... Só perdendo. Além de perder a casa onde eu trabalho, moro, durmo e como de graça; tenho meu quartinho gostoso com minha própria televisão; não pago água nem luz e tenho folga aos sábados e domingos; perco o emprego?
- É que ninguém fez uma lei para melhorar o salário das patroas, Joelma...
- E como a senhora vai fazer nessa casa desse tamanho sem empregada?
- Não sei bem. Acho que vou pedir marmita e contratar uma diarista duas vezes por semana. No resto da semana fica a bagunça mesmo...
- Mas eu não queria ir embora, Dª Rossana... Eu fico aqui até de graça, desde que a senhora me deixe continuar morando no meu quartinho. Não precisa nem me pagar nada. Eu assino qualquer papel que a senhora quiser
- Daí eu seria presa por explorar trabalho escravo, criatura.
Silêncio...
- E corre para arrumar suas coisas, pois você tem que sair dessa casa logo, antes que a tal da Emenda vire Lei e entre em vigor, senão, além de todos os benefícios e aviso prévio que são de praxe, eu vou ter que pagar uma multa por despedi-la sem justa causa, apesar de eu achar que essa tal emenda é causa mais que justa.
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segunda-feira, 25 de março de 2013


Croniqueta Surreal (I)


A grande sister

O nome dela era Zuleide.
Conhecer pessoalmente não conheci, mas parece-me íntima de tanto que ouvi falar da dita. Não sei nem se não havia algum exagero...
Fato é que a história de Zuleide tanto me arrebatou que não pude furtar-me de compartilhá-la.
Zuleide era uma menina de bairro de cidade do interior, simplória e não era lá um “poço de inteligência” sendo que seu raciocínio brando ditava suas ações sem grandes surpresas.
Ingênua e sem criatividade, a Zul, como era chamada, era tranquila, trabalhadora e religiosa.
Trabalhava como recepcionista de um dentista, e não conseguia emprego melhor e nem almejava, porque mal deu conta de terminar o ensino médio. Todavia era bonitinha e se comunicava com educação, sendo, portanto, mais que eficiente na função que laborava. Achava-se importante, afinal era secretária do doutor Roque. Muito chique.
         Trabalhava com o dentista há quase três anos. Os clientes gostavam dela e a maioria, já antiga, havia se acostumado com a deficiência de argúcia da moça. Ruinzinha para entender uma piada...
Não, não era mal humorada. Pelo contrário! Só não tinha perspicácia ou senso de humor. Para ela, uma pedra era só uma pedra. Uma mulher sem poesia, diria Adélia Prado.
Zuleide tinha 22 anos e já tinha tido dois namorados, perdendo a virgindade recentemente com o segundo, o Genivaldo.
Era religiosa, mas não era santa, certo? Uma moça como qualquer outra que não pensou muito quando se apaixonou de verdade. Na verdade, pensou é que o “Gê” ia se casar com ela.
Era evangélica e quando Genivaldo a abandonou depois de ter “abusado” dela, aferrou-se ainda mais na sua fé e na sua igreja. Têm uns oito meses o ocorrido.
A moça sofreu mas não morreu. Ainda dava suas voltinhas e cometia seus pecadilhos, tipo um beijinho aqui, uma mãozinha acolá, mas não namorou sério mais ninguém. Outra de suas pequenas iniquidades era assistir alguns programas de TV que o pastor abominava, tais como novelas e o “Big Brother”.
Mas a Zul tinha um bom pretexto para si mesma A desculpa é que precisava se informar para ter assunto no trabalho com os clientes do doutor. Fazia parte de suas funções entreter os clientes enquanto aguardavam ser atendidos.
A verdade verdadeira era que a Zuleide gostava muito das novelas e adorava o tal do “Big Brother”.  O término de cada edição era como perder a família inteira. Nem o abandono do Genivaldo, “aquele canalha” doía tanto.
Assistia ao programa religiosamente desde a terceira edição. Esperava todo ano.
Secretamente, era apaixonada pelo Pedro Bial, apesar de não compreender metade do que ele falava. Durante o programa, torcia, irritava-se, sofria com os participantes e muitas vezes telefonou para eliminar este ou aquele “falso e manipulador”.
Um dia, na Igreja, o pastor fez uma comparação, dizendo que nossa vida era como no Big Brother e que éramos vigiados pelas câmeras do Senhor cada segundo de nossas existências. Os anjos viam cada mau passo nosso, e seria eliminado (iria para o inferno), aquele que não vivesse conforme os mandamentos de Deus.
Obviamente que Zuleide não compreendeu a metáfora. Ingênua, levou a comparação ao pé da letra.
Agora entendera porque Genivaldo havia sido eliminado. Os anjos tinham tirado aquele homem de sua vida, pois ‘ele a seduzira sem escrúpulos e a abandonara’. E ela agora amargava um paredão por ter cedido às tentações.
Tudo ficou muito claro!
Sentiu-se obrigada a provar aos anjos do Senhor que tinha se emendado e suplicar uma nova chance para que não a eliminassem. Não queria ir para o inferno. Orou muito.
A partir desse dia de ‘compreensão’, Zuleide começou realmente a jogar.
Queria ganhar o ‘milhão e meio’ que na certa era um bom casamento, um amor eterno. O Paraíso na Terra.
Comparava Bial com o pastor de sua igreja.
Será que ela pensava que Deus era o Boninho?
Na verdade, a mente de Zuleide não elaborava um raciocínio muito lógico sobre o assunto. Era mais uma reação instintiva, uma espécie de “insight” que norteava suas ações.
Sabia que em cada canto de sua casa, de seu trabalho, no ônibus, nas ruas, havia câmeras observando. Invisíveis, claro, já que eram divinas.
Passou a pensar muito antes de esboçar qualquer frase, com medo de magoar ou ser mal interpretada pelo público, quer dizer, pelos anjos. Tornou-se mais comedida, mais simpática, mais educada e sorria o tempo todo.
A mãe de Zuleide, Dª Zulmira, filha da antiga faxineira da escola, Dª Cleide, percebeu que a filha só se trocava no escuro, ou embaixo das cobertas, já acordava praticamente maquiada. Parecia representando um personagem de princesa de Walt Disney.
Dona Zulmira, que era simples, mas contrário da filha, muito esperta, observava encafifada o que estava acontecendo. Tentava arrancar alguma informação da criatura que pudesse elucidar tais atitudes pudorentas. Só recebia de volta um sorriso enigmático e carinhoso da menina dizendo que tudo estava bem.
Possessão! Só pode ser isso, concluiu a mãe. A filha estava possuída por um demônio!
Se fosse o caso, até que era um demônio por demais de bonzinho, já que a garota estava muito melhor, se comportando bem, se cuidando, tratando bem ao próximo, trabalhando direitinho e sem atrasos, indo à Igreja e não dava nenhum trabalho. Uma belezinha de pessoa!
Astuta que era, Dª Zulmira decidiu não comentar nada com o pastor da Igreja. Nada de exorcizar esse anjinho de demônio. Assim estava tudo muito melhor.
Até Genivaldo, quando reencontrou Zuleide se espantou com a aparência e atitudes da moça. Tentou até se reaproximar, mas ela percebeu a ‘manobra da emissora’. Satanás queria ibope e não seria ela quem daria...
Resumindo a história, a Zuleide está atualmente saindo com um rapaz da Igreja, muito respeitoso e trabalhador que está encantado com a doçura e a delicadeza da moça.
Parece que a estratégia está dando certo e Zul está conseguindo se manter no jogo e prestes a ganhar seu milhão.
Plim plim.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Muito Lóca




Eu tenho uma amiga muito especial.
Apesar de sarcástica e notadamente perversa, incoerentemente é uma ótima e querida amiga.
Na impossibilidade de citar-lhe o nome verdadeiro, vou chamá-la de Lóca, alcunha que lhe presenteei para não chamá-la acintosamente de “louca”, que é o que penso que ela seja. Surpreendentemente ela gostou.
Deixo claro, que Lóca não é uma personagem criada por mim, tampouco é meu alter ego.
É uma mulher de carne e osso e uma boca mais que faladeira.
Lóca é muito, muito incorreta, para ser o mais delicada possível, em todas as vertentes imagináveis do comportamento social humano.
Ela seria execrável para mim, se eu não a amasse tanto.
Na verdade, a despeito da amá-la, ela é execrável mesmo assim.
Acho que ela seria pior se não fosse tão divertida. Tendência ao deboche é um ótimo atributo em casos assim.
No caso da Lóca, com sua carência de predicados, é o que a salva. Aliás, faz dela uma pessoa até interessante.
Ainda não achei uma boa explicação para gostar tanto dela. A gente definitivamente não manda no coração.
Então eu a aceito como ela é, pois já desisti de tentar trazer um pouco de bom senso a esse protótipo de vilã de novela.
Lóca é especialista em frases terríveis e consegue cometer todos os preconceitos e desconstruir todas as considerações elaboradas conforme a ética e a moral humana.
Também, nunca sei quando ela está falando sério.
Só para começar a expor uma leve nuance de sua “meiga” personalidade, ela odeia animais.
Não é bem que odeia de querer fazer maldades. Só detesta e acha que animais deveriam viver bem longe dela.
Pelo bem deles, eu também acho...
Ela não maltrata, mas se pudesse levaria todos “de volta à floresta de onde nunca deveriam ter saído, principalmente os cachorrinhos chatinhos e gatinhos fofinhos”.
Explico pacientemente que cachorros e gatos não são animais silvestres nem selvagens. São animais domesticados pelo homem e que têm que conviver e morar com eles.
Ela se irrita: - Lugar de bicho não é dentro de casa! Odeio esse povo ”cachorrento”, que deixa o bicho subir na cama, sentar no sofá e a gente tem que fingir que não se importa. Tenha dó! O bicho nem usa papel higiênico. Que nojo...
Pensando bem...
Quando dirige, todas as aberrações cometidas no trânsito não chegam nem perto das atrocidades cometidas pela sua língua ferina.
Implacável! Fala direto e em alto e bom tom na cara do provável culpado.
Morro de vergonha e evito pegar carona com ela para me poupar de tantos constrangimentos, e sinto certo temor pela sua segurança, ou na melhor das hipóteses temo que ela seja presa por racismo, constrangimento público, danos emocionais, o que é melhor que uns sopapos...
- Ô navalha! Só podia ser velho e decrépito!
– Olha lá, homens de chapéu dirigem que nem caipira. Vai dirigir carro de boi, imbecil!
- Não aprendeu a dar seta, loira burra?
- Abre o olho japonês! Não está me vendo não?
- Eu sabia! Só podia ser preto!
- Eu sabia! Só podia ser mulher! (como se ela não fosse uma).
- Cuidado aí seu “viadinho”!!!
- Abaixa o som, seus “funkeiros” do c... !!!!
- Sai da frente, sua gorda! (Ela também é.)
Ai ai ai meu deusinho do céu!!!  Quero ficar invisível!
Mas espere! Não acabou ainda!
        Não satisfeita com todos esses “atributos” que lhe pesam contra, ela ainda é fumante e totalmente revoltada com as proibições legais de se fumar em lugares fechados ou públicos.
 - Que saco ter que sair de um lugar só para fumar um cigarrinho de nada. Coisa mais ridícula! Fumaça de carro e de chaminés faz muito mais estrago que esse meu modesto cigarrinho.
Diga-se de passagem, que o modesto não é um só. São dezenas por dia.
Também é contra a lei seca e diz sem nenhuma consternação que dirige muito melhor quando está “meio bêbada”: - Fico mais solta, sabe? Minha destreza só melhora.
Só ela acha...
Mas seu pior defeito, se é que é possível algo pior, é sua birra com as vagas de estacionamento para deficientes e idosos. Não acha lógica de jeito nenhum.
- Tem tanta vaga de idosos e deficientes nos shoppings e supermercados que não sobra mais vaga para a gente parar o carro. Isso já virou abuso de autoridade.
E não adianta argumentar com ela e tentar chamá-la à razão. Não tem conversa.
- É lei desses deputadinhos que não tem o que fazer e inventam moda para ficarem populares e a gente que se ferra. Se todos os deficientes e idosos “esperados” vierem ao shopping de uma vez, não haverá lugar para gente normal.
Normal! Ela disse “gente normal”. Minha Nossa Senhora dos Perdões!
Não contente com tantos absurdos ainda complementa: - Deviam fazer shoppings separados para velhos e deficientes e outros para nós (os normais?)... Pelo menos evitaríamos esses inconvenientes.
Sincera ela é, não resta dúvida. Corajosa também. E totalmente sem noção...
Eu me sinto sempre chegando ao ponto de quase desastre, que está sempre iminente em se tratando dela.
Só não acontece o pior, por que acho que as pessoas sublimam ao perceber que provavelmente ela não “bate bem da cachola”, coisa que ela se aproveita para falar o que bem entende.
Sua última “pérola” ela confessou no réveillon. - Nosso Prefeito (da cidade onde ela mora) vai assumir amanhã. Nosso não, do bando de nordestinos, e acho melhor eu me calar porque atualmente não se tem mais liberdade de expressão. Ninguém mais pode falar o que pensa! Rá!
O pior, é que eu sei bem o que ela pensa.
O melhor, é que parece que ela está criando algum juízo.