sexta-feira, 13 de julho de 2012

O rabugento





        Passava dos setenta e morava no interior.
Violeiro competente, e além de ser comerciante era também um político atuante na cidadezinha.
Conforme se soube, o velho era sistemático, teimoso, e por que não dizer, um caipira rabugento.
Como se tornou político tendo essa conduta antipática é uma incógnita. Um enigma, aliás, para quase todos os políticos desse país
        E cá entre nós, soube que o tal era meio transtornado.
       Imaginem vocês, que eventualmente cercava a própria loja com fita de isolamento “zebrada” de amarelo e preto, vedando a entrada de clientes.
Daí sentava-se na porta e tocava viola o dia inteiro.
Azar se alguém quisesse comprar alguma coisa. Ali não entrava!
    Incontáveis às vezes em que deixou o cliente experimentar, examinar e escolher uma peça. Na hora do “vou levar”... Não levava! O velho não vendia. Ou por que só tinha uma peça. Ou por que não foi com a cara do freguês, ou por qualquer motivo que lhe desse na telha.
Birrento.
Não vendia e pronto! Louco ou não?
     Contam que quando visitou a viúva de um correligionário que inexplicavelmente cometeu suicídio, inquiriu contumaz à inconsolável:
- Foi formicida?
- Não. Respondeu a viúva. – Foi “Diabo Verde” (Um ácido desentupidor).
- É “bão” também! Filosofou...
      De vez em quando se “arvorava” a passear de bicicleta pela cidadela. Sempre com o cenho fechado e cara embirrada. O delegado da cidade, que era velho conhecido, o chamou um dia quando estava dando suas pedaladas:
- Que foi, seu delegado? Por acaso tô sendo preso? Indagou o invocado.
- Que nada amigo, só queria dar uma voltinha nessa bicicleta. Posso? Perguntou o delegado.
- É claro que não! De jeito nenhum! Se “ocê” me rouba a bicicleta eu vou dar queixa pra quem?
        Existe coerência...
        Ah sim! Ele tinha um temor de voltar sozinho para casa quando estava escurecendo, já que morava afastado do centro urbano.
Se não tinha companhia - o que era habitual devido a sua ranhetice - ia entrando de bar em bar para ver se topava com algum “vizinho”.  
Assim se detinha em todos eles, que não eram poucos e tomava uma cachaçinha para “não fazer desfeita”. Só ia para casa quando o teor alcoólico ficava maior que o medo.
      Dormia embriagado todas as noites, o que talvez explique seu constante mau humor:
Pura ressaca.

domingo, 8 de julho de 2012

Ano eleitoral




A passeata passeia.
Trânsito congestionado...
Dois amigos compartilham carona.
- O que é agora? Outra passeata?
- São os invasores das casas daquele conjunto da Prefeitura.
- Cada dia é uma coisa diferente. Tenha dó!
- Ano eleitoral...
Trânsito congestionado...
- Ai minha paciência...
- São muitas as reivindicações...
- Mas já não faz um tempão que eles invadiram?
- Faz.
- Então o que mais eles querem?
- Sei lá! Vai ver, querem regularizar a situação. Quer sair do carro e ir lá perguntar?
- É ruim, heim!
- Ano eleitoral...
Trânsito congestionado.
- Tá vendo aquele moço, lá?
- Qual moço?
-Aquele de camiseta vermelha.
-Tá cheio de gente de camiseta vermelha.
- Aquele ali ao lado da mulher com o megafone.
- Sei qual é.
- Então, ele estava naquela manifestação de ante ontem.
- Na outra passeada?
- É!
- Aquela dos aposentados?
- Hum hum...
-Mas nem idoso ele é!
- Pois eu me lembro dele muito bem. Era o mais animado e indignado da passeata.
- Ano eleitoral...
Trânsito congestionado...
- Vou chegar atrasado do almoço de novo!
- O que ele está fazendo nessa aqui também?
- Sei lá! Vai ver que gosta de passear e gritar pela rua, ou então o pai aposentado  invadiu o tal conjunto residencial...
- Tá me gozando?
- Na verdade, é só algum candidato da oposição.
- Como você sabe disso?
- Ano eleitoral... 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Então?!




Como qualquer mulher que tem mais de quarenta anos deve fazer, lá fui eu me submeter aos exames preventivos triviais: mamografia e ultra-sonografia.         
Tenho mais de quarenta e mais não digo...         
São exames chatíssimos e desagradáveis, mas muito importantes. Apoio e divulgo toda campanha de prevenção e combate ao câncer de mama e outras doenças femininas.         
E depois, cá entre nós, não é nada com que não possamos lidar.         
O que é uma mamografiazinha perto de depilar pernas, axilas e até virilha? E tirar pelos da sobrancelha com pinças, parir um filho (será que é pleonasmo?), entre outras coisinhas abstrusas pelas quais estamos carecas de passar?         
Quase nada, ainda mais quando se trata da nossa saúde.                Ressalto que o termo “careca” foi empregado por mera força de expressão, pois esse desgosto costuma ficar para os homens para contrabalançar um pouquinho.         
Sei que os “meninos” também padecem com o tal exame da próstata, mas eu estou a falar de nós mulheres, ora bolas. Afinal é o assunto que entendo!         
Contudo, esses exames, sempre nos deixam um pouco apreensivas, pois os resultados podem decretar nosso futuro, mesmo quando se trata apenas de rotina.   Então, comparecer num laboratório desses não é lá uma coisa muito divertida.
Falando nisso, vale ressaltar que a sala de espera desses laboratórios para exames de imagem é um lugar onde o socialismo é exercido com extremo rigor.
Tanto faz se o plano de saúde é o básicão ou um top-vip-mega-blaster, pois somos todas obrigadas a nos vestir iguais, com um modelito básico especialmente criado para a ocasião. Um pano com dois buracos para os braços e uma faixa para amarrar. Medonho.
Obviamente, o “estilista” desse indumento não teria competência para escolher cores menos repugnantes.

Custava criar uma roupinha mais estruturada, adicionar alguns detalhes delicados e optar por uma cor mais alegre? Parece uma conspiração laboratorial. Já passei por vários laboratórios e todos eles querem nos enfear propositalmente. Um conluio com um intuito que ainda não consegui determinar, mas vou descobrir.
Não é suficiente o nosso padecer?
Sei bem que esses mimos são supérfluos quando o assunto é sério, ainda assim, nada justifica esse traje ridículo. 
Não há auto estima que resista!
Entretanto, não deixa de ser interessante quando nos tornamos todas iguais ao deixarmos de lados o que nos identifica: nossos pertences. Tudo fica trancado num armarinho, e seguimos portando apenas uma chave do lugar onde guardamos quem pensamos que somos. 
E somos dezenas por dia, centenas por semana, milhares...
Ali, olhando aquelas mulheres sentadas ao meu lado, em silêncio, a espera de serem chamadas, quase não sei discernir quem é pobre ou rica, quem é a grã fina, a doméstica, a estudante, a funcionária pública, a empresária... Estamos ali despojadas de nossos adornos e posses materiais.
Continuamos únicas e ao mesmo tempo passamos a ser tão parecidas, sem as coisas que nos distinguem, vestindo um uniforme de gosto duvidoso e de praticidade evidente, enfrentando nossos piores temores...
Mulheres no mesmo barco.
Entre nós quase não há palavras, mas uma cortesia implícita, uma cumplicidade silenciosa.
Quem pode saber o que cada uma carrega dentro de si? Na mente e no corpo? Estarão ali apenas pelo exame de rotina?
Talvez, entre nós exista alguma bem assustada ou o travando uma luta declarada com a doença, acompanhando a regressão ou o avanço de seus próprios receios. Eu não saberia apontar qual.
Quem sabe, apenas mulheres serenas, fazendo um simples e rotineiro exame, como eu, e agradecendo a Deus pelos avanços tecnológicos que permite sermos diagnosticadas com precisão e antecedência de qualquer indício de doença.
Entretanto, nem toda a tecnologia da medicina moderna solucionou um grande transtorno pela qual temos que passar: A tal da mamografia!
Preciso manifestar aqui a minha decepção com a classe científica que despende tanto dinheiro e esforço em modernizar os maquinários de exames por imagem, e não se dedica a pesquisar uma máquina que não trate nossos peitinhos como massa de pão.
Durante uma mamografia, nossos seios são colocados em uma plataforma especial e comprimidos gradualmente por uma placa até igualar de espessura, de modo que todo o tecido possa ser visualizado numa tela e isso é feito na horizontal e depois na vertical. Cada um...
Parece ruim? Pois é pior, já que as atendentes costumam achar que a espessura ideal para visualização de um peito, é a de uma folha de papel.
Quem nunca fez uma mamografia não tem noção do martírio.
Para os homens terem uma idéia, eu explico numa linguagem de macho: Imaginem seus testículos sendo comprimidos por uma morsa até ficarem da finura de uma pizza.
Então?!
É um procedimento quase medieval, mas que ainda é o mais eficaz no diagnóstico precoce do câncer de mama.
Portanto, apesar dos pesares, o custo benefício compensa.
Assim, conclamo as garotas dos vinte aos setenta anos para que se mantenham em dia com seus exames.
Já dizia o velho e sábio ditado: Prevenir é melhor que remediar!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Quando o inverno chegar...

imagem do google 

Meio de abril. Outono...
Um ventinho frio começa a soprar pelas manhãs e ao por do sol; e um arrepio frio começa a soprar dentro de mim.
Pavor...
Tenho aversão ao inverno e mal principia o outono, já começo a sofrer de véspera.
Oh malfadada friúra!
Obviamente posso estar exagerando, já que sou uma criatura hiperbólica e tenho noção de que no Brasil, o inverno nem é tão rigoroso como em outros muitos lugares do mundo, todavia, definitivamente não somos devidamente preparados para dias mais frios.
Talvez, por sermos um país tropical, e bonito por natureza, nossas casas, locais de trabalho ou lazer, não têm calefação adequada, ao menos para minha pouca resistência à friagem.
Eu sou, confessadamente uma criatura solar e necessito do calor! No outono, começo a ficar melancólica e descobri que isso é uma doença, espécie de depressão sazonal.
Quem diria! Eu achava que era só frio...
É no inverno que percebo o quanto gosto do verão.
Sei que muita gente adora o frio e é quase consenso, que o inverno é a estação mais legal, aconchegante e elegante que existe!
Sei! Vai ser pobre e morar na rua para ver quanta elegância!
Sei que não moro na rua, mesmo assim o frio dói, paralisa, e confesso que estou pouco ligando para essa tal elegância desconfortável do inverno. Gosto mesmo é de pouca roupa, de andar de sandálias, vestidinhos esvoaçantes, blusinhas frescas. Gosto da liberdade, sem ter meus movimentos limitados por montes de casacos, botas, meias, cachecóis, luvas, etc...
Por conta disso tudo que registrei aí em cima, é que fico ponderando durante outono em me mudar para algum lugar bem quente durante o inverno.
Resido na região sudeste, no estado de São Paulo. Vale do Paraíba. Entre a linda Serra da Mantiqueira e a Serra do Mar, e por aqui, quando o clima resolve esfriar, ele faz isso bem feitinho!
E eu? Sofro para acordar, para levantar, para tomar banho e para viver...
Então fico imaginando, idealizando um lugar diferente, onde todos os dias sejam quentes.
É apenas um exercício lúdico que faço sem grandes esperanças, já que trabalho diariamente e tenho uma filha em idade escolar. Não existe, portanto, a menor possibilidade de “fugir” - de maio até setembro -  para lugar nenhum.
Mas planear me ajuda a sobreviver.
Pode ser um lugar aqui mesmo no Brasil, que é meu lindo e querido país, com todas as estações, cores e climas a minha escolha. Além disso, é meu idioma.
Falando em “idioma”, penso logo que quero morar num lugar com nome bonito.
Tendo o calor como mote, pego um mapa do Brasil e campeio logo no alto. Região norte!
“Boa Vista”! Essa sim é uma cidade quente! Quase uma estufa para falar a verdade. Acho que é demais até para mim, além de ser longe pra dedéu. Mas veja que nome mais bonito: “Boa Vista”!  
O nome é tão bonito como “Belo Horizonte”, mas já decidi que não quero nada aqui no sudeste e isso vale igualmente para “Vitória” que também é um nome formoso.
No sul então, nem cogito. Friorenta como sou!
Aos meus amigos da região sul, meus respeitos sinceros pela coragem.
Insisto ainda ali no norte.
Que sabe Belém! Que nome mais fofo para uma cidade. Foi onde nasceu o menino Jesus... Tá, eu sei que é Belém do Pará, cidade da Fafá e não de Jesus! Foi só uma piada boba...
Entretanto, me contaram que em Belém chove muito. Mas muito mesmo! E não sou lá grande fã de muita chuva e umidade.
Dou uma espiadela no nordeste atrás de calor e cidades com nomes bonitos. Confesso que não gosto do nome “Aracaju” que além de ser feinho (o nome), significa “luz baixa”, ou “onde o sol nasce”. É a capital mais oriental do Brasil e pode ser um ótimo lugar para se comer caranguejo nas férias, mas eu, definitivamente não gosto de caranguejos.
Ando mais um bocadinho e chego em “Fortaleza”. Um nome forte, para uma cidade quente e bonita. O Ceará é lindo, mas se fosse para morar no Ceará, eu ia querer morar em Jericoacoara. Um paraíso de areia.
“Natal” também está bem cotada nessa minha infatigável busca. O nome é bonito, a cidade é bonita, praias maravilhosas, sol, dunas... Verdadeiro éden tropical, mas vou analisar todas as opções para não haver arrependimentos.
Macapá, Maceió, Manaus...
Cidades que começam com a letra “eme”. Todas as minhas tias maternas têm nomes que se iniciam com essa letra. Pode ser um sinal... E se for, é para ir ou para não ir? Não sei...
Vejamos “João Pessoa”. Apesar de conhecida como “Porta do sol”, me faz lembrar que o dito, o tal do João, foi assassinado por um amante humilhado. História triste...
Não estou podendo com tragédias.
Cogito “Recife”... Uma grande cidade! Pessoalmente, acho que o Pernambuco é um dos Estados que melhor fala a nossa língua pátria, sem erros e com um sotaque lindo, mas e essas histórias de tubarões, gente? Vai que eu resolvo surfar na praia da boa viagem e um tubarão resolve ficar com alguma parte minha? Acho que Recife está fora.
Eu bem podia fugir para “Brasília”, que quase não chove e é quente do jeitinho que eu gosto. Mas tem nome de carro velho. Péssima escolha seu José Bonifácio! Além disso, abriga o Congresso Brasileiro e  nem praia tem...
“Palmas” e “Porto Velho” começam com “P” que é como principia o nome dos meus tios (maternos), e também não tem praia, assim como “Rio Branco”.
Bom, ao menos está decidido que quero uma cidade quente, com nome bonito e que tenha praia.
Já posso descartar “Goiânia”, “Cuiabá”, “Campo Grande” e “Teresina.”
“São Luís” tem praia, mas também tem a família Sarney. Nem pensar!
“Salvador” parece legal e todo baiano que conheço tem saudades da Bahia, o que é um bom indicativo, mas cá entre nós, se fosse bom mesmo, eles não saiam de lá...
Sei que estou arrumando desculpas, mas é uma forma de me consolar já que sinceramente, sou refém de um cotidiano sem expectativas.
Resta-me sonhar, me agasalhar feito um urso e tentar sobreviver a mais um inverno sonhando com o regresso da minha amada primavera, nas manhãs ensolaradas de setembro.

            

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Santa hipocrisia


- Alô? Oi meu amor...

- Saudades, gata.

- Eu também, meu lindo. Nós vamos ficar juntos esta sexta-feira, né?

- Impossível, gata. É sexta-feira santa.

- Então, amor... É feriadão e não quero ficar sozinha.

- Mas é Sexta-feira da Paixão. Não vai dar...

- Se é sexta feira da "paixão", você devia ficar comigo. Por acaso vai viajar com a sua mulher?

- De jeito nenhum. Vamos ficar por aqui mesmo, e a sexta-feira santa é chamada de sexta-feira da Paixão porque é o dia que se celebra a paixão e morte de Jesus, Odete.

- Ah tá, tá... Entendi. Só não entendo o que tem uma coisa a ver com a outra.

- Como assim? É sexta-feira santa!

- Você já disse isso, Reinaldo! Mas o que é que a paixão de Cristo tem a ver com a nossa paixão?

- Daí que eu não posso trair minha esposa bem na sexta-feira Santa! É muito pecado!

- Tenha dó, Reinaldo! Você já pecou tudo o que podia e mais um pouco. Que diferença faz? Você trai sua mulher o ano inteiro!

- Eu também como carne o ano inteiro, Odete, mas não como na sexta feira santa!

- Você está me comparando a um pedaço de carne?

- Não foi isso que eu quis dizer, gata! É que em respeito a Jesus, eu não como carne na sexta feira santa e também abro mão da coisa que eu mais gosto. Um sacrifício, entende?

- Você está tentando me dizer que eu sou a coisa que você mais gosta, meu lindo?

- Você sabe que é, gata! Tem gente que faz abstinência a quaresma inteira, mas não sou forte para ficar todo esse tempo sem você. Mas pelo menos um dia no ano... 

- Ôoo meu lindinho... Tudo bem, então. Mas sábado a gente se vê, né?

- Claro! Eu passo na sua casa à tarde.

- Aleluia!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Tempos modernos




“Não há tempo que volte, amor
Vamos viver tudo que há pra viver
Vamos nos permitir...”
(Lulu Santos)




Decididamente eu sou uma antiguidade!
Parva, eu me dei conta disso recentemente!...
Pois é, eu sou do tempo em que só existia telefones com fio. Sei que ainda existem, mas eu sou do tempo em que eles tinham apenas quatro algarismos.
Bom, também sou do tempo do LP e é possível que haja muita gente que não faz idéia do que é isso. É assim que a gente percebe que está envelhecendo.
Dia desses, assisti um filme dos “anos 80”, onde aparecia um telefone sem fio e me lembrei, que na época já foi um avanço enorme poder se movimentar (num certo raio de alcance), sem ter que ficar limitado ao fio e à tomada do telefone.
Quando surgiram então os primeiros telefones celulares, eu achei fantástico. Saber que poderia levar o danadinho para onde fosse me deixou totalmente pasma! Aquilo era muito melhor que o “sapato-fone” do Agente 86.
Sim! Eu também sou do tempo do Maxwell Smart. É certo que já era reprise, mas ainda assim faz muito tempo...
Para ser sincera, a primeira vez que vi alguém falando de um celular, me pareceu exibicionismo desnecessário. Puro preconceito de quem ainda não sabia o que o futuro prometia...  Atualmente, de dez pessoas andando na rua, vinte estão falando ao celular. É uma epidemia que virou necessidade.
Hoje, eu não vou nem ao banheiro sem o meu.
Mas o que mais me impressionou, foi que eu imaginei que nunca mais nos sentiríamos sós, o que não é bem assim.
Todavia, rapidamente o aparato me conquistou e ao mundo inteiro.
Acho bobagem quando leio por aí coisas do tipo: “No meu tempo não tinha isso, nem aquilo e fui uma pessoa feliz. Sobrevivi sem traumas a uma infância sem computadores, sem celulares, jogos eletrônicos, etc.
Claro que sobrevivemos, e nossos avós, com muito menos, e nossos bisavós e tataravós então, menos ainda! Nem luz ou água encanada, nem vaso sanitário ou papel higiênico. Foram infelizes por isso? Não sei.
Penso que ninguém sofre pela falta daquilo que não conhece e cada um busca a felicidade no seu momento e no seu ambiente.
Mas voltando às modernidades, na minha crassa ignorância, alguns mistérios me deixavam estupefata! Tantas perguntas ficaram sem respostas...
O celular liga em quê? Como assim “Satélite”? Alguém pode me explicar o que é uma “Operadora”?
Queria entender o funcionamento dessas coisas, até que desisti e aderi ao uso, mesmo sem alcançar a compreensão. Em algum momento tudo vai ficar claro, ou não...
Como censurar a tecnologia e suas consequências? A evolução é irreversível e acho uma oportunidade especial estarmos vivendo por esses tempos, tendo acesso e experimentando a modernidade em nossas mãos, e me confesso uma adepta dessas geringonças modernosas. Me atrapalho, as vezes, mas me divirto.
Aliás, acho admirável a inteligência humana e sua evolução, ao menos na área tecnológica.
Infelizmente, não posso dizer o mesmo em outros campos, já que estamos ainda “engatinhando” na evolução moral e espiritual.
Excelente mesmo seria, se os esforços destinados à área tecnológica recebessem o mesmo empenho para solucionar a fome, as doenças, e outros tantos problemas da humanidade, mas isso é outro assunto.
Falando em soluções, não posso esquecer o principal ícone dos nossos tempos modernos: os computadores.
Primeiro eles eram geringonças imensas, e até se tornarem pessoais foi um longo caminho...
Quando eu me deparei com um no trabalho, ainda era sistema MS-DOS. Uma “coisinha” meio chata, mas já ajudava. Entretanto, com o advento do Windows, tudo ficou mais compreensível para mim.
Óbvio, que no começo, eu usava apenas o “World”, e associava a uma máquina de escrever elétrica.
Fui me apaixonando e adentrando pouco a pouco nesse universo dos diversos “softwares”, até que ela chegou: a Internet!
Uau! Como assim? Eu poderia ter um endereço eletrônico no computador e trocar cartas com outras pessoas sem precisar postar no correio? Essa foi demais!
É... Eu chamava “e-mails” de “cartas”, a bronca...
Apresentada à arroba, foi @m♥r a primeira vista.
Na ocasião, os computadores ainda eram pouco accessíveis para se ter em casa, mas o “mercado”, prevendo o sucesso, resolveu isso e rapidamente cada casa teria um, cada pessoa teria o seu...
E nem imaginava o que ainda estava por vir.
Então começaram a falar em navegadores... Heim? Aplicativos, gadjets, html... Dialeto estranho e sedutor.
Assisti nosso idioma perdendo a identidade e inventando verbos, Aderimos aos estrangeirismos e neologismos, com uma facilidade que até hoje fico vexada. “Deletar”, “escanear”, “plugar”, “samplear”, “lincar”, “blogar”, “twitar”, e por aí vai...
Uma desfaçatez, que nossos irmãos lusos nãos se prestaram assim facilmente.
Daí, para enlouquecer de vez, surgiram as redes sociais, em que dezenas, centenas, milhões de pessoas se conectam no mundo inteiro e podem conversar em tempo real e até se verem através do monitor.
Meu Deus, o futuro chegou!
E eu estou aqui fazendo parte dele. Extraordinário!
Nem os Jetsons teriam feito melhor!
E foi assim, que cada indivíduo “conectado” desse planeta, passou a expressar sua opinião individual para o universo coletivo.
Cada pessoa passou a ser uma espécie de jornalista de suas próprias notícias e crenças, com direito a se auto promover através de postagens em blogger, twitter, facebook, tumblr, do quase finado Orkut, e o que mais existir, que desconheço.
É possível ainda “seguir” um ao outro, meter o bedelho na vida alheia e se agrupar por afinidades.
Existem perigos, principalmente para as crianças, o que requer cuidados e orientações, e como tudo, tem seu lado bom e ruim.
Comparo a um “Karaokê”. Tem a benesse de ser democrático e, portanto, todo mundo tem o direito de cantar se quiser, para se sentir feliz. Azar do ouvido alheio que nem sempre agradece.
Relação custo x benefício, sabem como é?
O fato é que os equipamentos se multiplicaram. Computadores, celulares, laptops, notebooks, tablets, tocadores de MP3, pendrives e muito mais, com dezenas de “aplicativos”. Tem um tal de wirelles,  o bluetooth, as plataformas de código aberto, etc.
É mágico!  A “energia está no ar”...
Com um telefone celular, posso ver televisão, ouvir música, jogar, gravar, fotografar, filmar, acessar internet e as redes sociais, e o mais legal de tudo: eu ainda posso - se quiser - telefonar!
E não preciso nem discar, nem teclar. Basta tocar ou comandar por voz...
Hoje em dia existe até HD virtual, ou seja, se seu computador não tem memória para suportar todos os seus arquivos, você pode arquivar tudo (documentos, fotos, músicas, etc.), num HD virtual.
Alguém sabe onde fica isso? Seria um mundo paralelo, uma espécie de umbral das memórias? Como diria minha filha: bizarro...
O mais curioso é observar que as crianças já nascem sabendo operar essas pequenas geringonças, como se sempre houvessem existido. Decididamente são novos tempos.
Obviamente que a nossa felicidade não está nesses aparatos, mas não está também em ficarmos num saudosismo desmedido e sem sentido.
Vamos aproveitar o que temos de bom e cada conquista que a inteligência criativa do homem inventou para o bem, porque o que ela cria para o mal nos é enfiado goela abaixo sem opção. 


@Rossana Masiero

terça-feira, 6 de março de 2012

Peixes, etc...


Por reivindicações familiares, que aqui não vem ao caso esmiuçar, passei a tarde de domingo numa escola de teatro na capital de São Paulo.
Tive medo que fosse um “programa de índio”, mas muito me enganei, pois me diverti sobremaneira.
A escola tem direcionamento para “Musicais”, trabalhando o desempenho na área de atuação, canto e dança simultaneamente. O grupo de alunos era formado por cerca de 40 jovens, cuja faixa etária variava entre 14 e 27 anos ou pouco mais.
Surpreendi-me por que tinha mais homens que mulheres. Pode não significar nada, apenas não estou acostumada.
Porque essa crônica tem “peixe” no nome?
É o que estou tentando explicar, mas tenho uma mania terrível de não ser direta. Fico dando volteios e me desvirtuo do contexto, e às vezes, até esqueço qual era o assunto.  
Seguindo com meu raciocino truncado, prometo chegar aos peixes.
Durante uma das dinâmicas, o grupo de alunos dividiu-se em duplas que se apresentavam entre si e em seguida, era apresentado pelo colega ao grupo todo.
Tudo seguia normalmente, com algumas informações supérfluas (no meu parco entendimento), mas importantíssimas para eles, pelo que pude perceber! Falavam de signos, ascendentes, hora de nascimento, cor preferida, animais de estimação, etc.
Eu já estava num estado entre o meditar e o roncar, quando um dos garotos com seus catorze ou quinze anos, ao apresentar a colega, disse que a mesma tinha um peixe, e que juntos chegaram à conclusão de que um peixe não era animal de estimação e sim um animal de enfeite.
Achei engraçado! Sempre pensei em peixe como animal comida.
Uma das alunas que era bióloga retrucou bem humorada, e um rapaz, afrontadíssimo, fez um discurso, declarando que tinha dois peixes, que conversava com eles e que os estimava muito. Pirado de tudo!
Principiou-se um estrepitoso burburinho. Gostaram de “estrepitoso”? Eu também!
Voltando ao assunto, todos tinham uma opinião ou uma piadinha a respeito de peixes e queriam manifestá-la ao mesmo tempo, até que a professora teve que intervir para dar continuidade ao exercício.
Mesmo estando já bem acordada, não obtive a conclusão da polêmica e ainda carrego comigo a tal dúvida:
Além de servirem como alimento, os peixes são animais de enfeite ou de estimação?
Não que a conclusão vá mudar minha vida, mas na falta de coisa melhor para fazer...
Lembro que quando minha filha era pequenina, ela sonhava em ter um peixe cor-de-rosa. Eu me fazia de surda, disfarçava e ia procrastinando...
Resumindo, eu não era nem um pouco a fim de cuidar de peixe, que cá entre nós, acho um animal muito bobo!
Mas aos quatro aninhos, tudo o que uma menininha pede com jeitinho, acaba ganhando. Num belo dia, chega um casal de amigos com um lindo aquário e um peixinho cor-de-rosa de presente para a pequena.
Pronto! Sobrou pra mim...
Minha filhinha ficou exultante!
Ela queria por tudo interagir com o peixinho, tocá-lo, segurá-lo nas mãozinhas pequeninas, e tenho certeza, que apesar de eu ter explicado que peixe não se pega no colo, ela deve ter tentado em algum momento em que eu estava ausente. Aliás, pelas vezes em que encontrei o aquário revirado, foram muitos esses momentos.
Talvez, peixes sirvam mesmo só para enfeite.
O peixinho era cor-de-rosa e, portanto, apesar de ser um lindo Betta macho, foi determinado (por ela), que o peixe era uma “menina” e se chamava Yasmine, para não ficar igual ao nome da namorada do Aladim.
Peguei-a conversando com Yasmine diversas vezes, que ficava olhando para ela através dos vidros reluzentes com aquela olhar de peixe morto. Talvez, peixes sejam animais de estimação, afinal de contas...
Interessa é que esse “olhar de peixe morto” não foi apenas uma expressão e sim uma profecia, pois o peixinho, não durou muito. Não sei se pela minha inabilidade em cuidá-lo ou se pelas intervenções sistemáticas da minha menina, tentando pegá-lo.
Num dia qualquer, poucas semanas após sua chegada, encontrei Yasmine mortinha no fundo do aquário. A criança estava na escolinha, o que foi uma sorte, pois me deu tempo de procurar outro parecido para substituir o finado.
Apesar de essa prática ter se repetido algumas vezes, a cada “Yasmine” nova, o tempo de vida era maior.
Acho que eu estava enfim “pegando o jeito” de cuidar de peixe ou então, a minha filha tinha desistido de pegar o bichinho.
Ela não notava a troca dos peixinhos, até que num dia fatídico, foi ela que encontrou o defunto de peixinho no fundo do aquário.
Uma comoção geral!
Os olhinhos estupefatos e assustados miravam o bichinho descorado, quase invisível no fundo aquário. Foi uma choradeira. Eu não queria que minha criança passasse por essa experiência de perda e morte ainda tão pequenina, portanto nem vacilei!
Recolhi o bichinho (ai que nojo!), coloquei num porta-jóias com todo o cuidado e disse que ia levá-lo ao médico depois de deixá-la na escola.
Seus olhinhos vermelhos se encheram de esperança e ela me deu um sorriso de gratidão que valia por todos os absurdos do mundo!
A supermãe ataca novamente!
Prometi (insensata), que ao buscá-la na escola, a Yasmine já estaria bem. Eu já estava mesmo “escolada” em comprar peixinhos e já conhecia todas as lojas da cidade. A dificuldade era só encontrar um parecido.
Adivinhem?
A dificuldade tornou-se impossibilidade! Oh Deus! Porque esse Murphy tem que se meter em tudo? Será que ele inventou até uma lei para peixes?
Passei a tarde inteira procurando um Betta cor-de-rosa. Tinha de todas as cores, menos a necessária!
Já não sabia mais o que fazer até que escolhi um de cor entre púrpura e tijolo. Era um pouco maior que a Yasmine anterior e tinha um rabo mais longo, mas não tinha jeito. Era aquele ou nenhum!
Peixe comprado, fui pegar a pequena na escola, que já entrou no carro perguntando pelo peixinho. Mostrei o saquinho de plástico com o bichinho dentro, temendo o que viria a seguir.
Ela segurou o saquinho e olhou bem para o Betta rabudo, espantada ao ver Yasmine tão diferente.
Sua lógica infantil poupou-me de dar explicações desnecessárias.
- Aposto que o tio Carlinhos (o pediatra) deu vitamina para você crescer! Você está linda Yasmine!
Que delícia! Essa foi por pouco...