quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Um fumante revoltado


Vamos sair hoje, véio? Pega a patroa e vamos sair para ouvir uma música e tomar umas cervejinhas! Faz um tempão que não fazemos isso.
- Vou não, Zé! Quero sair de casa mais não!
- Tá deprê?
- Não! Estou fumê! Eu sou fumante, lembra?
- Sim, e daí?
- Daí que já não há mais lugar no mundo onde eu possa fumar sem ser tratado como criminoso, a não ser na minha casa; e ainda assim, só no quintal, longe das crianças e da patroa.
- Pois então, não acha que é uma boa oportunidade para parar? Vai deixar de se divertir por causa desse vício estúpido? Para logo com essa porcaria!
- Não! Não paro, não quero parar e tenho raiva de quem para! Melhor mudar de assunto senão vamos acabar brigando!
- Calma aí, rapaz! Que estresse...
- Você me conhece, Zé. Nunca, em toda a minha vida, fiz nada de ilegal e, no entanto, tenho sido tratado como um pária. Sou um cara bem bacana com todo mundo, mas agora me tornei, de uma hora para outra, um estorvo, só porque sou fumante.
- Você é um cara inteligente, véio! Sabe o quanto o cigarro faz mal.
- E eu não sei disso? Já tentei parar tantas vezes... É difícil, Zé. Sofrido demais e não quero passar por isso de novo. As pessoas deviam ter mais tolerância com quem tem muito tempo de vício. Alias, deviam ser intolerantes é com os produtores e vendedores...
- Hã?
- Se o cigarro é uma droga tão maléfica, só deveria ser vendido para quem é  comprovadamente viciado, com receita médica e tal... Igual a remédio tarja preta. Você não concorda?
- É? Sei lá...
- Alguém resolve mudar a lei e fumar passa a ser crime! Mudaram a regra no meio do jogo e agora, o que eu faço com meu vício? E, no entanto, a venda de cigarros segue livre. Continuam vendendo cigarros em todo lugar, sem nenhum controle e viciando mais pessoas. É uma hipocrisia!
- Livre arbítrio, cara! As pessoas têm direito de escolha. Se quiserem se matar...
- Até parece! Não temos escolha nem de escolhermos onde nos matar. Outro dia quase apanhei porque estava fumando num ponto de ônibus. Uma mulher ficava se abanando como se eu estivesse fumando num elevador fechado. Ficava fingindo que estava tossindo, só para me constranger. Daí, as outras pessoas ficaram me olhando feio. Eu estava ao ar livre onde nem é proibido, mas me senti acuado! Fiquei com medo de ser linchado. Virou uma caça às bruxas!
- Que exagero, o seu. Com todo respeito, “véio”, vocês fumantes abusaram! Não respeitavam locais fechados e cheios de gente, aviões, ônibus, carros, etc. Fumavam em todo lugar!
- Mas Zé, todo mundo fazia isso! Era normal... Nos filmes, nas novelas, nos comerciais de TV, na minha casa e na casa de todos que me lembro. Desde que eu era menininho via meu pai, que acordava e acendia um cigarro, antes mesmo de tomar um lanche.
Fiz um esforço danado para conseguir fumar e acompanhar meus amigos. Passei mal à beça, mas tinha que ser macho, Zé! Afinal todo mundo fumava. As propagandas só falavam bem do cigarro e nunca me disseram, à época, que não deveria ter começado. Havia uma acanhada oposição dos pais, mas sabiam que era questão de tempo e todos seríamos fumantes. Eu fui só mais um estúpido que seguiu a corrente e adquiriu o vício. Não sou um bandido.
- Mas agora que você já sabe que faz mal, porque não para?
- Porque não dá mais! Não consigo ficar sem fumar. Não me imagino viver sem fumar um cigarro após as refeições, depois do cafezinho, junto com a cervejinha...
- Você está querendo dizer que a vida não tem sentido? Que não tem graça viver sem segurar um canudo de papel cheio de porcaria e ficar engolindo e soltando fumaça? É nisso que se resume sua existência? Que absurdo você falar uma coisa dessas!
- Pois é isso mesmo, cara! Você nunca foi fumante e não sabe o que é isso.
- E nem quero, credo! Tenho certeza que se você quiser mesmo parar, você consegue!
- Típica observação de leigo! Desculpa Zé, mas não tenho mais paciência para esses argumentos, e pensando bem, já que a venda não é ilegal, deveríamos ao menos ter o direito de ter nossos próprios lugares.
- Como assim?
- Devia ter lugares para os fumantes fumarem a vontade enquanto se divertem, bares, restaurantes, danceterias, etc., onde fosse proibida a entrada de “não fumantes”. Tipo “entrou, tem que fumar”! Daí  iam ver como é bom ficar se metendo na vida alheia.
- Você é uma “figura”! Não procede proibir a entrada de alguém que não incomoda, nem obrigar alguém que não quer, a fumar. Eles não se metem na vida alheia, apenas não querem respirar a fumaça do seu cigarro.
- Então não entrem lá, ué... Deixem que nós, os suicidas fumantes, nos matemos lentamente. Até porque não tempos pressa nenhuma.
- Muito engraçadinho você! Outro dia ouvi uma frase que seria cômica se não fosse trágica: “O fumante passivo sofre um estupro em estado gasoso”.
- Ah ah ah! Quanta hipocrisia! Até parece que o ar que respiramos é puro, que a água que tomamos é limpa e que os alimentos que comemos são saudáveis. Só o meu cigarro é tóxico? Os tão corretos e limpos, me olhando de cima com seus olhares de recriminação e nojo. Na verdade, nós os fumantes, somos vítimas. Imbecis, mas vítimas. Vítimas de uma indústria que viciou e continua viciando milhares de pessoas.
- Isso lá é verdade...
- Aliás, hoje em dia, se têm mais respeito com um usuário de droga do que por um fumante. Estamos relegados ao desprezo, ao relento, fumando na chuva, na rua, no frio...
- Quanto drama! Fala sério! Estou achando que você anda muito nervoso e está precisando de terapia.
- Se o terapeuta permitir fumar, eu topo! Até lá, eu prefiro ficar aqui no meu quintal, tomando minha cerveja, sem ofender o mundo com minha existência fumacenta.
Enquanto isso, a patroa que ouve a conversa de longe, se lembra do perfumado e bem humorado colega de trabalho que vive insistindo para levá-la a dançar qualquer dia desses...

7 comentários:

✿ chica disse...

Maravilha de conto e surpreendente final! Lindo! beijos,chica

MIRZE disse...

Ross!

Você escreve bem demais.

Zé tem razão. Os USA obrigaram o povo a fumar porque na época o dinheiro vinha do fumo, e atores e atletas fumando eram um charme. Agora a caça é aos que tem petróleo. Mas acho que devia haver um consenso. O que estão fazendo é "caça aos fumantes", quando a guerra é apenas contra o cigarro.

Bárbaro. Qual será a próxima
caçada? Onde cai parar essa perseguição ao ser humano?

Parabéns!

Beijos

Mirze

Primeira Pessoa disse...

não fosse a minha bronquite crônica e uma paranóia crescente de que iria virar uma coisa bem pior, eu continuaria dizendo que o mundo ficou careta demais.

sim, me incomodava a cara das pessoas, ao me ver fumando... aquela cara de que preguei Jesus Cristo na cruz... de que matei odete toitman...

lá se vão dez dias sem cigarro. sinto imensas saudades dele. e, adoraria pensar que, ele também de mim...


bela crônica.

r.

Dilberto L. Rosa disse...

Apesar de achar que o "protagonista" do conto seja uma espécie de alter-ego de alguma fumante próxima (rs), adorei o final surpreendentemente machadiano: parabéns!

Quanto às críticas do tal fumante, uma crítica pessoal minha: o que falta é bom senso a essas chaminés humanas! Poxa, ao ar livre pode, mas... Precisa ser a favor do vento dos demais?! É só retirar-se um pouquinho, que não incomoda! A inversão que esses fumantes fazem chega a ser irritante, viu?! Abração, sumida!!!

Evanir disse...

Estamos a poucos dias do Natal esse dia especial que vemos passar por nós
incansavelmente ao longo de toda a vida.
vamos abrir as portas dar ao Menino Deus as boas vindas ao aniversáriante.
Um Feliz Natal ..Paz Amor E Luz De Jesus.
Obrigada por estar presente na minha vida no decorrer desse ano que breve chegara ao final.
Deus permita que nossa amizade seja iluminada pelo menino Jesus.
Um Natal De Felicidade Para Você Familia E Amigos.
Beijos ternos e carinhosos.
Evanir.
Tem um presente de Natal no blog se gostar esta a seu dispor.

Jota Effe Esse disse...

Gostei da ideia de tarja preta para os cigarros. Sem falar na crônica muito bem feita. Meu beijo.

Mirian Lamy disse...

Gênia da prosa...tirou daqui..

bjokas