quinta-feira, 24 de novembro de 2011

sobre a beleza...


Certamente eu não posso ser considerada uma esteta na acepção rigorosa da palavra. Óbvio que admiro o belo, mas me falta ser convencida sobre alguns parâmetros.
Ouve-se falar muito sobre beleza e o ‘jargão’ mais citado é o célebre verso de Vinícius de Moraes: “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Pode até ter suas razões líricas o poetinha, considerando que falava especificamente das mulheres, assunto que decerto entendia bem (ou não), já que se casou nove vezes. Mas isso já “são outros quinhentos”.
Eu tenho lá minhas restrições sobre “rótulos” em geral, sobretudo a respeito do que é considerado “bonito”. Não se trata de um questionamento filosófico sobre as oscilações do gosto. Eu só busco captar o “espírito” da coisa...
Os padrões humanos para definição de beleza já foram culturais, geográficos e temporais, mas atualmente (talvez devido ao processo de globalização), a avaliação coletiva do belo anda extremamente restrita, e os julgamentos tendenciosos e “manipuláveis”.
Sim! O gosto pode ser manipulado sim, assim como a moda, entre outras coisas. Daí fica tudo muito confuso... De tanto sermos bombardeados pela mídia intencional, tem até quem ache Ronaldinho gaúcho bonito... Tem quem imite o cabelo do Neimar!
Por falar em imitar, as pessoas estão sempre querendo mudar a própria aparência para se parecer com outras que estão dentro dos “tais padrões” quase unânimes.
As “chapinhas” e os preenchimentos labiais são algumas das provas contundentes, assim como os silicones e as tinturas de cabelos que não me deixam mentir. As negras estão ficando loiras e de cabelos lisos, as japonesas andam ruivas e peitudas, entre outras estranhezas. Já foi o tempo das esqueléticas e agora, a última moda são as mulheres com o corpo parecido como o do Arnold Schwarzenegger quando era mocinho.
Juro que não tenho nenhuma restrição nem preconceito! Cada um que faça o que quiser consigo mesmo. Apenas me intriga essa necessidade de tentarmos nos adequar ao que é taxado de “belo”, ignorando as singularidades das etnias e características físicas individuais.
De qualquer maneira (ainda bem), prevalece o velho e sábio ditado: “Gosto não se discute”, já que é um conceito extremamente abstrato.
A ciência até hoje tenta elucidar a percepção do belo, analisando a beleza  como uma experiência pessoal e íntima; um processo cognitivomental, sexual ou até espiritual, relacionada aos elementos que agradam de forma singular aquele que a experimenta, blá-blá-blá...
Tenta, mas não consegue. Não há consenso nas especulações.
Cada qual é cada qual...
Eu por exemplo, tenho uma noção de beleza um pouco mais abrangente e quiçá mais excêntrica que a dos demais. Meu senso estético é mais tolerante, por assim dizer.
Não é nem porque tento enxergar além do invólucro a tal “beleza interior”. Acho que é só um desvio comportamental mesmo. Eu sempre tive uma inerente hostilidade pelo “belo demais”.
Confesso que quando mais jovem, achava que o excesso de beleza (nas pessoas), era prepotente e quase sempre carregava certa arrogância, presunção e empáfia.  Puro preconceito da minha parte!
Na minha adolescência, essa intransigência fez de mim a alegria dos meninos feinhos, por assim dizer. Não dos muito feios, óbvio, porque aí, só Deus e as próprias mães gostam.
Se o guri fosse problemático ou melancólico então, aí mesmo é que me apaixonava.
Com propensão para psicanalista, eu sempre tive simpatia pelos complicados e menos afortunados no quesito harmonia, e cá entre nós, a puberdade é um período especialmente difícil esteticamente. Ficamos todos virados no avesso, principalmente os meninos que não se utilizam dos mesmos artifícios que as meninas para minimizar os efeitos da “metamorfose” e era aí que eu entrava.
Se algum ex namorado estiver lendo isso, peço que não leve para o lado pessoal, mas se um garoto fosse muito bonito, eu não queria saber dele e ponto final. Não dava mole!
Costumava ignorar solenemente os garotos lindinhos, como se estivesse dando uma lição nos afortunados! Que boboca...
Muito provável que eles nem tenham se dado conta desse meu desprezo matematicamente calculado e, matutando sobre isso, tenho a impressão que eu é que tinha algum problema. Dos sérios!
Talvez fosse insegurança ou medo de rejeição.
Hoje já não generalizo, pois com a maturidade fui reconhecendo em muita gente bonita por fora, a benignidade que chamamos de ‘beleza interior’. Entretanto, é certo que a beleza humana carrega consigo o mesma peso conferido ao dinheiro e ao poder: facilita a vida e abre muitas portas, e é por isso mesmo, um grande teste de caráter.
Esse assunto me veio à lembrança enquanto caminhava na esteira da academia que freqüento, e observei os rapazes que vaidosos, malhavam seus bíceps, tríceps, abdomens, etc...
Com a sabedoria dos “enta” já consigo aceitar a beleza sem grandes dificuldades e nem me irritei com a exibição.
Nada como a maturidade para derrubar velhas convicções.

6 comentários:

Anttonioarq disse...

Bem, eu já falei do assunto no meu "cafofo", digo, Blog... Mas gostei de como definiu. Sempre bom passar por aqui.

Tania regina Contreiras disse...

Que bacana seu texto, Ro...Identifiquei-me totalmente. Conceito de beleza é pra mim totalmente sibjetivo. Gosto quase sempre do incomum. Comum é achar bonito o que se enquadra nos padrões. Nunca gostei de nada "certinho". Uma assimetria aqui, um desvio ali, um excesso cá, uma escassez lá...e aí encontro sempre o "meu" bonito. Delicioso texto, viu? Também, na adolescência, gostava do que se chamava de "não bonito". Mas beleza é mesmo um conceito subjetivo, acho eu.
Beijos,

Mirian Lamy disse...

Amiga
Voce está arrasando na prosa também. Olha que abordagem interessante:
" Entretanto, é certo que a beleza humana carrega consigo o mesma peso conferido ao dinheiro e ao poder: facilita a vida e abre muitas portas, e é por isso mesmo, um grande teste de caráter."
Parabens !! mil bjs

Anônimo disse...

Querida Rossana:

que bom que eu não era a única doida que preferia os amigos + desajeitados. Acho que a rejeição ao próximo sempre me incomodou... por isso, eu dava alento aos amigos que não faziam sucesso.

Juro que com a maturidade, isso vem se acentuando... numa ninhada de adoção de gatos ou cachorros, o que sempre me agrada é o mais sarnento e magricelo... quem sabe um psiquiatra resolva meu problema. rsrsrsrs! Ou talvez o nome correto para isto seja altruísmo e não havíamos nos dado conta. Paula do Paulo.

MIRZE disse...

ROSS!

Cada dia que venho aqui, mais lhe admiro. Isso sim, é a própria beleza.

Arrasou no texto no qual concordo com tudo.

Parabéns, amigona!

Beijos

Mirze

P.S. Mas você é linda e ponto

Anônimo disse...

excelente comentário,concordo plenamente !